Tuesday, August 21, 2007

Dinheiro: Será que realmente confiamos em Elohim?

De Paul William Roberts e Syd Kessler

Ninguém tem muita certeza sobre a origem do antigo ditado "O dinheiro é a raiz de todo o mal"; assim como ninguém pode dizer, com certeza, como e porque o porco - um símbolo de impureza para judeus, muçulmanos e membros de diversas outras crenças e seitas - virou o cofrinho da poupança.

Porém é indiscutível que tanto um quanto o outro são, ou certamente foram, identificados com um folclore anti-semita relacionado com a avareza judaica. Mas assim como outro axioma constantemente citado, que diz que "o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe totalmente", ambos devem suas origens - na melhor das hipóteses - a verdades parciais. E uma verdade parcial não é de fato uma verdade. A verdade é absoluta. A idéia de que o dinheiro é mal ou impuro tem suas raízes no profundo desrespeito a ele - e é esse mesmo desrespeito que, ironicamente, pode levar a sua efetiva impureza e ao seu uso para propósitos malignos. Uma coisa não pode ser inerentemente boa ou má; é o uso que fazemos dela que pode associá-la a ações justas ou injustas. O dinheiro real – e com isto quero me referir ao dinheiro não corrompido – merece nosso respeito, por várias razões espirituais, além das diversas razões materiais.

Na verdade o dinheiro é uma forma poderosa de energia e, assim como a eletricidade ou a energia nuclear, é capaz de causar danos terríveis, assim como pode trazer benefícios. O mesmo dinheiro que alimentará uma aldeia africana por uma semana, também poderá ser usado para comprar explosivos suficientes para mutilar, deformar ou matar um número igual de pessoas. Este é um poder realmente impressionante. E um poder assim sempre vem com regras. Nenhum adulto em estado de perfeita sanidade quebraria de forma consciente as leis para o uso da eletricidade – alguém ou alguma coisa poder sofrer um dano. Embora as regras fundamentais para o uso da eletricidade sejam amplamente conhecidas e respeitadas por todos, as que se referem ao uso do dinheiro não são.

Para os sábios a pobreza era, senão a raiz de todo o mal, mas com certeza, a pior coisa do universo. "Se toda a dor e todo o sofrimento deste mundo,” lemos no Midrash (Êxodo Raba 31:14), “fossem postos em um prato da balança e a pobreza em outro, o prato da pobreza pesaria mais". Embora a pobreza contenha tanto elementos naturais quanto humanos, ela é diretamente associada ao dinheiro, no sentido de que o dinheiro pode aliviá-la. Esta é a razão pela qual os sábios desenvolveram "yishuv olam", o conceito de um esforço para "ordenar o mundo". Ele tem suas origens em Gênesis 2:15, onde é atribuída à humanidade a tarefa de "cultivar e proteger" a terra. Este conceito exige que nos esforcemos continuamente para melhorar a qualidade de vida geral, ao mesmo tempo mantendo com o mundo uma relação escrupulosamente honesta.

Criar abundância sem provocar escassez não é somente muito difícil., é também um princípio que se estende do universo físico para o espiritual. Pois a toda ação tem reação correspondente igual e contrária. O que vai, volta. É muito melhor viver com o essencial do que, na tentativa de gerar uma abundância, provocar escassez para alguma outra pessoa. Como diz um ditado budista: "Aquele que aprende que o suficiente é suficiente sempre terá o suficiente".

Aqueles que ainda pensam - como uma cultura consumista nos insta a pensar - que demais é o suficiente, deveriam lembrar de uma história do Êxodo. Quando os hebreus estão vagando pelo deserto sem comida eram alimentados, eles se vêem alimentados diariamente pela maná que cai milagrosamente do céu; porém, quando resolvem guardar mais da maná do que realmente precisam, não somente essa maná excedente apodrece e se torna não-comestível, mas eles também descobrem que o próprio meio ambiente reage, tornando-se ainda menos propenso a produzir as necessidades vitais. É uma parábola tão profundamente relevante hoje – se não muito mais, e em diversos níveis – como era há 3000 anos.

Conta-se uma história sobre um rabino muito justo a quem foi permitido visitar o purgatório e o paraíso. Primeiro ele foi levado ao purgatório onde se deparou com pessoas sofrendo de tal maneira como ele nunca havia visto ou mesmo imaginado. Seus gritos horríveis ecoavam pelo ar e feriam seus ouvidos mas, quando se aproximou, o rabino viu, surpreso, que as pessoas estavam sentadas diante de uma mesa onde havia o mais suntuoso e sofisticado banquete. Os talheres eram de prata, a louça de finíssima porcelana e nos pratos estava servida a comida mais deliciosa. O rabino simplesmente não conseguia compreender porque pessoas naquela situação poderiam parecer estar sofrendo tão horrivelmente, até que se aproximou mais e percebeu que seus cotovelos estavam invertidos, o que impedia que dobrassem os braços e levassem a comida da mesa até suas bocas.

Em seguida, o rabino foi levado ao paraíso, onde - antes mesmo de poder ver alguma coisa - ouviu risadas e sentiu uma atmosfera de alegria e celebração. Mas, para sua imensa surpresa, ele viu exatamente a mesma cena do purgatório, com as pessoas sentadas diante de uma mesa luxuosamente servida com a mesma comida deliciosa. Na verdade era tudo idêntico - inclusive os cotovelos invertidos - à exceção de um pequeno detalhe: aqui cada pessoa levava a comida da mesa à boca de quem estava sentado ao seu lado.

Nestas duas imagens estranhas reside uma verdade poderosa, na realidade a maior de todas as verdades. A diferença entre uma vida egoísta e uma vida justa, entre o bem e o mal, está em pensar no nosso semelhante antes de pensarmos em nós mesmos. Porque com esta atitude nossas maiores necessidades são simultaneamente atendidas.

Este é um aspecto do conceito cabalístico de Restrição, que se aplica tanto para a iluminação divina como para colocar o pão na mesa. Para que a busca do conhecimento espiritual seja ativa - em oposição a uma dádiva passiva - o Criador escondeu Sua Verdade para que pudéssemos, através de nossos esforços, descobri-la. Em outra analogia, o copo deve estar vazio antes de poder receber o néctar. Da mesma forma, se verdadeiramente desejamos receber o que é genuinamente nosso numa área de ganho, material ou espiritual, devemos nos voltar para dentro e não para fora. Devemos nos esvaziar completamente de nossos desejos. Só então eles serão plenamente satisfeitos. Como ensinam os arqueiros Zen: uma pessoa acerta o centro do alvo não através da sua vontade de acertá-lo, mas sim realizando corretamente todas as ações e procedimentos que levam a permitir que a flecha voe. Desta maneira, os mestres arqueiros podem atingir o centro do alvo de olhos vendados, à noite, e a 200 metros de distância do alvo.

Isto é tão verdadeiro no mundo dos negócios como em qualquer outro mundo. Por que o que é o dinheiro senão o símbolo de um acordo que não teria valor se não tivesse o consentimento mútuo de todas as partes envolvidas numa transação? Goethe descreve a arquitetura como "música congelada"; para os sábios o dinheiro é "trabalho congelado". Representa a realidade de todos os elementos envolvidos para criar o que o dinheiro compra - a mão-de-obra, o intelecto, a matéria prima, etc. - e, portanto, deve ser tratado com o mesmo respeito que esses fatores mereceriam se estivessem visivelmente presentes. O mundo inteiro pode então ser visto como um Mercado onde, sem regras, haveria um pandemônio, um termo originalmente usado pelo poeta John Milton para designar o reino dos demônios.

O único princípio controlador que poderia estar por trás deste conjunto de regras - seja para o enriquecimento material ou o espiritual - é o conceito de tzedaká. Freqüentemente traduzido para o português como caridade, seu verdadeiro significado está mais próximo da palavra justiça, que em hebraico é tzedek. Embora o Cristianismo, o Islã e o Judaísmo discordem, em seus respectivos credos, sobre a suprema importância do amor ou da justiça, não é preciso dizer que se você ama seu vizinho você o trata com justiça. Tampouco tzedaká é apenas um conceito para guiar as ações no Mercado; ele denota uma atividade que deve ser posta em prática diariamente, com entusiasmo e criatividade. Isto não tem nada a ver com entregar o dízimo, no final do ano, para obras de caridade pois, pois embora muitos repitam o ditado "Dar é bem melhor do que receber", poucos parecem ter descoberto que, de fato, dar é muito melhor. De fato essa alegria é tão profunda que muitos sábios consideravam um grande privilégio ter a possibilidade de dar desinteressadamente.

Uma vez Reb Shmelke descobriu que não tinha dinheiro para dar a um mendigo que pedia esmolas. Imediatamente foi ao armário da esposa, apanhou o anel preferido dela e entregou-o ao pobre senhor. Quando a esposa do reb voltou e descobriu o que acontecera começou a chorar. "Aquele anel valia mais do que 50 talentos", reclamou, exigindo que o reb imediatamente corresse atrás do mendigo. Ele correu o mais que pôde até finalmente alcançar o velho mendigo. Ofegante o reb agarrou-o pelo braço e disse: "Ouça! Acabei de saber que o anel que lhe dei vale mais do que 50 talentos! Não se deixe enganar se alguém quiser lhe dar por ele menos do que isso!“

O mundo do reb, o mundo de tzedaká, parece bizarro quando comparado com o mundo material, o reino da limitação. No entanto, o reb na verdade está fazendo o que as escrituras recomendam: guardando as riquezas "onde as traças e a ferrugem não possam estragá-las". Aqui, Restrição e tzedaká são exatamente a mesma coisa; na verdade, não devem ser vistas separadamente, como qualquer ensinamento, pois são parte de um sistema complexo, um motor espiritual que puxa os vagões do trem material em direção à dissolvente luz da Verdade.

A importância cabalística de tzedaká é provavelmente mais bem exemplificada no exercício das hierarquias feito pelo Rabino Yehuda no Midrash Tanhuma examinando os diferentes receptores de poder deste mundo: A pedra é dura, mas o ferro a corta. O ferro é rígido, mas o fogo o derrete. O fogo é poderoso, mas a água o apaga. A água é pesada, mas as nuvens a carregam. As nuvens são fortes, mas o vento as dispersa. O vento é forte, mas o corpo resiste a ele. O corpo é forte, mas o medo o destrói. O medo é forte, mas o vinho o afasta. O vinho é forte, mas o sono o domina. A morte é mais poderosa do que qualquer um destes, mas a tzedaká a redime.

A morte aqui representa a forma mais abstrata de não-transação, que é redimida pela tzedaká, que é ela mesma o ideal perfeito de transação – em outras palavras, a vida vivida até seu potencial máximo. Este potencial só pode ser realizado quando todas as nossas responsabilidades são completamente compreendidas.

Talvez a melhor maneira de entendermos as responsabilidades inerentes ao dinheiro seja considerá-lo - como muitos dos rabinos ensinam - como algo emprestado, que não nos pertence. Desta forma, em algum momento teremos que prestar contas de cada centavo. E, assim como nada que seja realmente nosso possa ser tirado de nós, da mesma forma não podemos ficar com algo que não é nosso por direito. Os contratempos financeiros, assim como as heranças inesperadas podem parecer algo diferente sob esta luz.

E, em última análise, o que é realmente nosso? Nossa resposta poderia ser que tendemos a falar que temos uma alma, quando na realidade temos um corpo, mas somos uma alma - e sendo assim, temos que agir como tal. A era messiânica - a Era Dourada, em vez da atual era do ouro - estará aqui, então, num piscar de olhos. Porque a injustiça na verdade é a raiz e o resultado de todos os males.